Expansão da mobilidade elétrica: como preparar sua edificação para o futuro com planejamento técnico
Engenharia de Instalação

Expansão da mobilidade elétrica: como preparar sua edificação para o futuro com planejamento técnico

Preparar uma edificação para a mobilidade elétrica é dimensionar a infraestrutura para a demanda que virá. Isso pede projeção de adesão por horizonte, folga de capacidade na entrada de energia, infraestrutura passiva de eletrodutos, caixas e espaço nos quadros, e gerenciamento de carga que divide a potência entre os carregadores. O investimento sai em fases, evita obra repetida na garagem e mantém o ativo competitivo diante das leis novas.

Quando o prédio responde a cada pedido de carregador como um caso isolado, a garagem acumula intervenções que não conversam entre si. O primeiro morador recebe um circuito puxado do quadro mais próximo, o quinto exige a troca do disjuntor geral, e o décimo esbarra na capacidade do transformador. Nesse ponto a administração já pagou três obras civis na mesma laje. Ainda falta o projeto que deveria ter vindo antes do primeiro ponto.

Segundo a ABVE, a frota brasileira de veículos leves eletrificados alcançou um milhão de unidades em 24 de setembro de 2026. Foram 328.483 emplacamentos entre janeiro e agosto, com participação de 21,8% nas vendas de agosto. O número inclui híbridos convencionais, que não se ligam na tomada, e são os elétricos puros e os híbridos plug-in desse total que chegam à garagem pedindo circuito de recarga.

A curva de adesão: por que planejar para a demanda de amanhã

A curva de adesão à mobilidade elétrica está no trecho em que a inclinação muda de um ano para o outro. O projeto dimensionado para a demanda de hoje fica pequeno antes de se pagar. Planejar para a demanda de amanhã significa escolher um horizonte, de cinco a dez anos, e dimensionar entrada, prumadas e quadros para o fim desse período.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, publicado pela EPE, projeta que 23% dos licenciamentos de veículos leves em 2035 serão eletrificados, o equivalente a 784 mil unidades por ano. A frota do segmento chegará a 3,7 milhões de veículos, e a demanda de eletricidade da eletromobilidade sobe de 627 GWh em 2025 para 7,8 TWh em 2035.

Parte dessa carga vai se concentrar em garagens de condomínios e de edifícios corporativos, porque a recarga mais barata acontece onde o carro fica parado por horas. Em São Paulo, a Lei nº 18.403/2026 já exige capacidade mínima para recarga futura nos empreendimentos com projeto aprovado depois de fevereiro de 2026. Fora dessa obrigação, o prédio existente passa a disputar comprador e locatário com empreendimentos que já nascem com a reserva.

Projeção de demanda: quantos pontos prever e quando

Projetar a demanda de recarga de uma edificação começa pela contagem de vagas e pela taxa de adesão esperada em cada horizonte, e termina na potência que cada ponto vai pedir do sistema. O número de carregadores a prever sai desse cruzamento, e o momento de instalar cada lote sai da curva de pedidos que a administração registra.

O guia de perguntas e respostas do Secovi-SP sobre carregadores em condomínios adota 7 kW como demanda de referência por veículo. O carregador de parede inteligente dessa potência é o padrão recomendado para condomínio residencial. Com esse valor, um prédio com 100 vagas e adesão de 10% no primeiro ano precisa alimentar 70 kW só de recarga. A mesma garagem com 30% de adesão em cinco anos chega a 210 kW, se nada dividir a potência entre os carregadores.

Pela ABNT NBR 17019, a potência de cada ponto de conexão é a nominal do equipamento. O fator de demanda é igual a 1 no circuito de cada ponto e também no quadro que alimenta várias estações, a menos que haja controle de recarga instalado. O projetista soma os carregadores na potência cheia, como se todos carregassem ao mesmo tempo, e compara essa soma com a folga real da entrada de energia.

Nos primeiros pontos, segundo o mesmo guia do Secovi-SP, a folga se confere pela análise do diagrama unifilar. Para expandir, entra a medição do consumo em janela de 7 a 14 dias, em semanas típicas de uso do prédio, com registrador de tensão, corrente e potência. Quando a soma prevista ultrapassa a capacidade, o caminho passa pela distribuidora. Ela avalia o pedido de aumento de carga dentro das regras de distribuição consolidadas pela ANEEL na Resolução Normativa nº 1.000/2021.

Infraestrutura passiva: a expansão barata se decide agora

Infraestrutura passiva de recarga é a parte da instalação que ainda não carrega nenhum veículo e que reduz a instalação de cada carregador futuro a uma tarefa de dias, sem abrir laje. São os eletrodutos vazios até cada grupo de vagas, as caixas de passagem, o espaço reservado nos quadros e a capacidade de barramento para os circuitos que ainda não existem.

Quando entra junto com outra intervenção já prevista na garagem, como a troca de piso, a pintura de vagas ou a reforma da iluminação, a infraestrutura passiva aproveita o canteiro montado e a laje já aberta. Por isso o traçado dos eletrodutos se decide no projeto geral, antes do primeiro carregador. Assim o pedido que chega depois da obra fechada encontra o caminho pronto.

Projeto escalável é o nome da instalação desenhada para crescer por lotes sem nova obra civil, em que a etapa seguinte só acrescenta carregadores e disjuntores num caminho que já existe.

Eletrodutos, espaços reservados e capacidade no quadro

Eletrodutos de reserva saem do quadro de recarga até caixas de passagem posicionadas a cada grupo de vagas. O diâmetro é dimensionado para o número de circuitos previsto no horizonte do projeto, com fio-guia deixado dentro.

A NBR 17019 determina que todo ponto de conexão seja alimentado individualmente e protegido por dispositivo DR de no máximo 30 mA, o que multiplica o espaço necessário nos quadros. O quadro reservado para recarga fica separado do quadro geral da garagem. Barramento e disjuntor de entrada são dimensionados para a etapa final, com posições vazias para os disjuntores das etapas seguintes.

No ponto de entrega, a reserva vale para o transformador e para o ramal. A troca do transformador por um de capacidade maior custa menos quando acontece uma vez só, com a distribuidora consultada antes do primeiro lote.

Prédio novo: o que a lei e os bombeiros já pedem

Edificação nova em São Paulo já nasce com a obrigação de capacidade mínima para recarga futura, pelo artigo 2º da Lei nº 18.403/2026. Em qualquer estado, a normativa do Corpo de Bombeiros decide onde a infraestrutura passiva pode ir, e o levantamento dessa normativa vem antes do traçado.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Nota CHEMG 326/2025 do CBMERJ recomenda as áreas de recarga preferencialmente no térreo. A mesma nota orienta a não instalar em subsolos sem chuveiros automáticos. Em São Paulo, a Instrução Técnica nº 41, em vigor desde março de 2026, admite só os modos de recarga 3 e 4 em áreas internas e pede chave de emergência a até 5 metros dos equipamentos. As diretrizes estaduais estão reunidas no post sobre instalação de pontos de recarga e as diretrizes dos Corpos de Bombeiros.

Eletroduto passado para o terceiro subsolo de um prédio carioca sem chuveiros automáticos é dinheiro enterrado, porque a nota do CBMERJ orienta a não instalar recarga ali. Nos estados que ainda não publicaram normativa própria, as orientações do Rio e de São Paulo servem como referência de projeto.

Gerenciamento de carga: mais carregadores sem estourar a demanda

Gerenciamento de carga é o sistema que divide a potência disponível entre os carregadores em uso, de modo que a soma das correntes nunca ultrapasse o limite definido no estudo de demanda. Com ele, a mesma entrada de energia atende um número maior de pontos. Os veículos raramente carregam todos ao mesmo tempo e cada um aceita receber menos potência por mais horas.

O guia do Secovi-SP nomeia balanceamento estático, dinâmico e adaptativo. No estático, o limite é fixo e dividido entre os carregadores ativos. No dinâmico, o sistema lê a carga do prédio em tempo real e entrega à recarga só o que sobra. No adaptativo, a distribuição ainda pesa prioridade e horário de saída de cada veículo. Como a NBR 17019 só admite fator de demanda menor que 1 no quadro quando há controle de recarga, o balanceamento decide se o projeto cabe na entrada existente ou pede transformador novo.

Na Tarifa Branca da ANEEL, disponível para unidades atendidas em baixa tensão, o valor da energia muda ao longo do dia útil. Os postos são ponta, intermediário e fora de ponta, e fins de semana e feriados ficam sempre no fora de ponta. Um sistema que empurra a recarga para a madrugada reduz a conta e tira a garagem do horário em que o prédio inteiro está ligado.

Quem usa paga a energia da recarga, pelo guia do Secovi-SP, com medidor dedicado ou com carregador inteligente que registra o consumo. Esse rateio evita que o condomínio absorva na conta ordinária o custo de abastecer carros particulares. Para funcionar, ele depende de o sistema de gerenciamento escolhido registrar o consumo de cada ponto.

Faseamento do investimento: como diluir o custo no tempo

Faseamento transforma um orçamento inviável numa sequência de decisões aprováveis em assembleia, cada uma com escopo fechado. O custo de preparar a edificação depende da distância entre o ponto de entrega e as vagas e da necessidade de trocar transformador ou ramal. Pesam ainda a obra civil para passar eletrodutos e o sistema de gerenciamento escolhido. Nenhum desses itens precisa ser pago no mesmo ano.

  1. Estudo de demanda e projeto geral: medição de carga, projeção de adesão por horizonte, traçado da infraestrutura passiva, consulta à normativa dos bombeiros e à distribuidora, com ART do responsável técnico. É a fase mais barata e a única que não pode ser pulada.
  2. Infraestrutura passiva e ponto de entrega: eletrodutos, caixas, quadro de recarga com posições vazias e, quando o estudo apontar, a adequação da entrada de energia. Aproveita qualquer obra já prevista na garagem.
  3. Primeiros pontos com gerenciamento: carregadores para a adesão atual, já ligados ao sistema de balanceamento e de medição, com rateio definido em assembleia.
  4. Expansão por adesão: novos pontos entram conforme os pedidos chegam, sem obra civil, com projeto individual conferido pelo responsável técnico do condomínio.

O guia do Secovi-SP trata a instalação que atende a todos os condôminos como despesa do condomínio. Ela entra no rateio ordinário ou em rateio extra aprovado em assembleia por maioria simples dos presentes. A instalação que atende só uma parte, sem adequação suplementar da rede comum, pode ser custeada pelos interessados, também com aprovação em assembleia. A garagem continua área comum mesmo quando a vaga é de uso exclusivo.

Instalações individuais em vaga privativa cabem nesse desenho quando o projeto geral já existe. Cada pedido novo recebe projeto próprio, conferido por engenheiro que atua em nome do condomínio. A inspeção depois da execução confirma que o ponto seguiu o padrão do prédio, independentemente do instalador que o morador escolheu.

Impacto no valor do ativo e atratividade do empreendimento

Infraestrutura de recarga planejada muda o valor do ativo em liquidez, em custo evitado e em conformidade. Para o comprador ou o locatário corporativo que chega com frota eletrificada, a garagem sem caminho para o carregador vira item de obra no orçamento da mudança. A lei paulista para edificações novas fixa o padrão com que os prédios existentes passam a ser comparados no mesmo mercado.

Custo evitado é a parcela mais fácil de medir, porque o prédio que passou eletrodutos e reservou quadro com a garagem aberta instala o carregador seguinte por uma fração do custo de quem abre a laje de novo. O ganho se repete a cada ponto adicionado ao longo da vida útil da instalação.

Conformidade pesa no mesmo sentido, porque a edificação com estudo de demanda, projeto com ART, gerenciamento de carga e traçado conforme a normativa dos bombeiros tem o dossiê pronto para seguradora, assembleia e fiscalização. A relação entre manutenção predial e a valorização de imóveis corporativos vale também para a recarga.

Num edifício corporativo no Rio de Janeiro com 200 vagas em dois subsolos, o plano nasce do estudo de demanda que mede a folga da entrada durante duas semanas típicas. A infraestrutura passiva chega até o primeiro subsolo, que tem chuveiros automáticos. 

O segundo fica fora do traçado por orientação do CBMERJ. O primeiro lote instala vinte pontos de 7 kW sob balanceamento dinâmico, com medição individual. A expansão até sessenta pontos acontece pedido a pedido, sem nova obra civil, dentro da capacidade que o transformador trocado uma única vez já comporta.

Perguntas frequentes

Como preparar um condomínio para veículos elétricos?

Comece pelo estudo de demanda, que mede a folga da entrada de energia e projeta a adesão por horizonte. Depois, aprove em assembleia um projeto geral com ART, passe a infraestrutura passiva até as vagas, escolha um sistema de gerenciamento de carga com medição individual e instale os carregadores em lotes, conforme os pedidos chegam.

Quantos pontos de recarga um prédio deve prever?

O número sai do cruzamento entre vagas, taxa de adesão esperada em cinco a dez anos e potência por ponto, com 7 kW como referência de condomínio. A infraestrutura passiva se dimensiona para o fim do horizonte, e os carregadores entram por lotes, de modo que a garagem nunca precisa de obra civil para receber o ponto seguinte.

O que é infraestrutura passiva de recarga?

É a parte da instalação que ainda não alimenta veículo nenhum, formada por eletrodutos vazios até cada grupo de vagas, caixas de passagem, quadro de recarga com posições reservadas e capacidade de barramento e de entrada para os circuitos futuros. Sai mais barata quando aproveita outra obra já prevista na garagem.

Ponto de recarga valoriza o imóvel?

O ganho aparece em liquidez, custo evitado e conformidade. Para comprador e locatário com frota eletrificada, a garagem sem caminho para o carregador vira obra a fazer, o ponto seguinte custa uma fração quando a infraestrutura passiva já existe, e a lei paulista para edificações novas fixa o padrão com que os prédios existentes passam a ser comparados.

O que é gerenciamento de carga em carregadores?

É o sistema que divide a potência disponível entre os carregadores em uso para que a soma das correntes não ultrapasse o limite do estudo de demanda. Pode ser estático, com limite fixo, dinâmico, lendo a carga do prédio em tempo real, ou adaptativo, com prioridade por veículo. É o que permite mais pontos na mesma entrada de energia.

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Araujo Abreu: consultoria e projeto com visão de longo prazo

A Araujo Abreu projeta a infraestrutura de recarga de uma edificação a partir do estudo de demanda e do horizonte de adesão. Infraestrutura passiva, gerenciamento de carga e faseamento ficam definidos antes do primeiro carregador, e cada lote de instalação tem responsável técnico e ART.

Fundada em 1922 no Rio de Janeiro, a empresa atende ambientes corporativos, hospitalares, industriais e institucionais em todos os estados do Brasil. Ela mantém as certificações ISO 9001, 14001, 41001 e 45001, e a ISO 41001, de gestão de facilities, sustenta o planejamento de longo prazo das instalações que opera.

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