Gestão de riscos em instalações de recarga: como proteger seu patrimônio e seus usuários
Instalação de recarga de veículo elétrico é segura quando nasce de projeto conforme as normas ABNT, com responsável técnico e ART e posição escolhida por análise de risco. Desligamento de emergência acessível e inspeção periódica completam a proteção. Tomada comum adaptada, carregador sem documentação e vaga em subsolo sem chuveiros automáticos concentram o risco, e a conservação das partes comuns cabe ao síndico ou ao gestor da edificação.
Em 16 de maio de 2025, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro publicou a Nota CHEMG 326/2025. O documento reúne requisitos e recomendações de segurança para estações de recarga em edificações. A vigência foi declarada transitória, válida até a edição de um normativo específico. Em São Paulo, o Corpo de Bombeiros abriu consulta pública em novembro de 2025 e, em 17 de março de 2026, publicou a Portaria CCB-003/970/2026. Ela atualiza a Instrução Técnica nº 41 com regras para os sistemas de alimentação de veículos elétricos, em vigor desde a publicação.
Rio de Janeiro e São Paulo são dois exemplos regionais de um movimento que atravessa os Corpos de Bombeiros estaduais. Num estado a regra já é definitiva, no outro ainda é transitória, e em boa parte do país ela nem foi escrita enquanto os carregadores já funcionam nas garagens.
O gestor de uma edificação administra esse risco com a normativa do próprio estado em mãos e acompanha o que muda durante a vida útil do equipamento instalado.
Por que instalações de recarga entram no mapa de riscos da edificação?
As instalações de recarga entram no mapa de riscos porque acrescentam à garagem, projetada para veículos a combustão estacionados, um circuito elétrico de alta demanda funcionando por horas sem supervisão. Ao lado desse circuito ficam veículos com baterias de Lítio, numa área comum pela qual o condomínio ou a administração do edifício responde.
Pedidos de carregador chegam às administrações no ritmo das vendas, e segundo a ABVE foram 223.912 veículos leves eletrificados vendidos no Brasil em 2025, alta de 26% sobre o ano anterior. Desse total, 80.178 eram totalmente elétricos, e a frota de eletrificados somava 950.183 unidades até agosto de 2026.
Na matriz de riscos da edificação, o carregador entra como ativo novo, com perigos próprios, probabilidade que depende da qualidade da instalação e severidade que depende do lugar onde ele está. O registro segue o mesmo método descrito em matriz de riscos para a manutenção predial, com responsável e prazo de revisão definidos.
A natureza do risco: eletricidade e baterias de Lítio
Eletricidade e bateria de Lítio formam as duas origens de perigo numa vaga de recarga, e pedem controles distintos. O perigo elétrico nasce no circuito que alimenta o carregador, dentro da responsabilidade da instalação predial. Já o perigo da bateria nasce no veículo conectado, que pertence ao usuário e escapa ao controle direto da gestão.
Do lado elétrico, o perigo aparece em conexão aquecida, circuito compartilhado com outras cargas e ausência de proteção diferencial residual. O caso mais grave é o carregamento em tomada comum com adaptador ou extensão, prática que o item 5.6.5 da IT 41 paulista proíbe. Nessa ligação, uma tomada de uso geral fica submetida a horas seguidas de corrente elevada.
Quanto à bateria, não há estatística brasileira oficial sobre incêndios envolvendo veículos elétricos, e o dado público mais próximo vem de fora do país. Na Suécia, a agência MCF, antiga MSB, registrou 40 carros elétricos ou híbridos envolvidos em incêndio em 2024, contra 38 em 2023, numa frota de quase 900 mil veículos. É um número estrangeiro, útil como ordem de grandeza, e qualquer comparação com as garagens brasileiras depende de dado nacional que ainda não foi publicado.
Um evento raro com consequência severa é o perfil de risco que a gestão predial trata com prevenção e preparo. Um incêndio numa garagem fechada, com dezenas de veículos estacionados próximos uns dos outros, tem custo muito superior ao das medidas que reduzem a chance de ele começar ou de se espalhar.
Thermal runaway: o que é e por que muda a estratégia de combate a incêndio
Thermal runaway, ou fuga térmica, é a reação em cadeia em que uma célula de bateria de Lítio aquece além do ponto de estabilidade. Os materiais internos se decompõem em reações que geram mais calor e gases inflamáveis. O calor passa às células vizinhas, que entram no mesmo processo e mantêm o incêndio alimentado por dentro.
Por se sustentar com o calor gerado dentro da própria bateria, o processo pode continuar depois de a chama visível ser apagada, com risco de reignição posterior. O combate depende de resfriamento prolongado com grande volume de água, conduzido pelo Corpo de Bombeiros. Enquanto isso, a brigada da edificação cuida do alarme, do abandono da área e do desligamento dos carregadores.
Extintor portátil atua sobre o princípio de incêndio no carregador, no cabo ou em material próximo. Uma bateria em fuga térmica demanda volume de água e tempo de resfriamento que ultrapassam a capacidade de qualquer equipamento portátil. Tipo, quantidade e posição dos extintores e dos chuveiros automáticos seguem o projeto de segurança contra incêndio aprovado pelo Corpo de Bombeiros do estado.
Avaliação de riscos: a metodologia antes do projeto
A avaliação de riscos para estação de recarga é o levantamento que antecede o projeto e responde onde instalar, com que proteção e sob quais restrições. O levantamento cruza a capacidade elétrica disponível, a geometria da garagem, as medidas de segurança contra incêndio já existentes e a normativa do Corpo de Bombeiros do estado em que a edificação está.
Pela parte elétrica, o levantamento começa na curva de carga da instalação existente, que a IT 41 paulista inclui na responsabilidade técnica, com estudo de demanda e viabilidade de transformadores, condutores e proteções. Quando o acréscimo de carga exigir, é esse estudo que aponta a troca, e a análise segue pela condição do aterramento, dos quadros de distribuição e da proteção contra surtos.
Rotas de saída, chuveiros automáticos, ventilação, distância de áreas com inflamáveis e distância das tomadas de ar do sistema de climatização formam a segunda metade do levantamento. Tudo fica registrado com fotos e plantas, porque esse registro sustenta depois a escolha da posição perante a assembleia, a seguradora e a fiscalização.
Com os dados em mãos, os perigos vão para a matriz com probabilidade e severidade. As medidas de controle seguem a ordem que a engenharia de segurança aplica a qualquer risco. A escolha do local elimina a exposição, a proteção coletiva e os sistemas de desligamento reduzem o que sobra, e procedimento e sinalização ficam como última camada.
Posicionamento seguro: os critérios que reduzem exposição
Posicionar uma estação de recarga com segurança significa escolher o ponto em que um incêndio no veículo conectado atinge o menor número de pessoas e bens e fica mais acessível ao combate. Esse ponto também preserva a saída de quem está no prédio, e costuma ficar o mais perto possível do térreo e da área externa.
No Rio de Janeiro, por exemplo, a Nota CHEMG 326/2025 do CBMERJ recomenda instalar as áreas de recarga preferencialmente no térreo, em áreas descobertas e externas à edificação. A nota orienta a não instalar em subsolos ou garagens fechadas desprovidos de sistema de chuveiros automáticos. Também recomenda afastar as vagas de recarga dos meios de saída e das entradas de ar dos sistemas de climatização. Em edificações com vários subsolos, a orientação é evitar os níveis mais distantes do térreo.
Em São Paulo, a IT 41 atualizada traz critérios mensuráveis na mesma direção, já com força de norma. Em áreas internas, ela admite somente os modos de recarga 3 e 4 da NBR IEC 61851-1 e pede chave de emergência local a no máximo 5 metros dos equipamentos. Em edificações com uma única rota de saída de emergência, a instrução exige afastamento mínimo de 5 metros dessa rota.
Fora desses dois estados, a referência obrigatória é a normativa do Corpo de Bombeiros local. Onde ainda não houver regra específica, as orientações do Rio de Janeiro e de São Paulo servem como boa prática de projeto. A escolha precisa ficar documentada, e o projeto deve ser revisto quando a norma do estado sair.
✅ Medidas de proteção para instalações de recarga
A proteção eficaz numa vaga de recarga soma circuito exclusivo com proteção diferencial e desligamento de emergência alcançável sem aproximação do veículo. Completam o conjunto a sinalização que indica onde fica esse desligamento e a rotina de inspeção registrada no sistema de gestão da manutenção.
Projeto e instalação
☐ Projeto elétrico com responsável técnico e ART
☐ Circuito exclusivo com disjuntor e DR próprios
☐ Proteção contra surtos no quadro das estações
☐ Carregamento proibido em tomada comum ou extensão
☐ Defensa contra impacto de veículo em manobra
Operação
☐ Chave de emergência sinalizada e acessível
☐ Vagas de recarga demarcadas no piso
☐ Instruções de uso e de emergência afixadas
☐ Orientação do instalador sobre desligamento seguro
Emergência e documentação
☐ Projeto de incêndio atualizado com as vagas
☐ Certificado de Aprovação ou equivalente válido
☐ Brigada treinada para alarme e desligamento
☐ Registro de inspeções e manutenções
Responsabilidade civil e documentação: o que protege o gestor?
Em condomínios, o artigo 1.348, inciso V, do Código Civil atribui ao síndico o dever de diligenciar a conservação e a guarda das partes comuns. A infraestrutura elétrica da garagem que alimenta os carregadores costuma ser parte comum, e fica sob essa responsabilidade mesmo quando o carregador pertence a um condômino.
Pela Lei nº 18.403/2026, de São Paulo, o condômino tem assegurado o direito de instalar, às suas expensas, estação de recarga individual na vaga privativa. A instalação exige compatibilidade com a carga elétrica da unidade, profissional habilitado com ART ou RRT e comunicação formal prévia à administração. A convenção pode regular a comunicação, os padrões técnicos e a responsabilização por danos ou consumo, e só pode vetar a instalação com justificativa técnica ou de segurança fundamentada e documentada, o que torna a análise de risco o documento central de qualquer recusa.
Na apuração de um acidente, a pergunta que recai sobre a gestão é se houve diligência, e a resposta sai de documento. Contam o projeto com ART do responsável técnico, o laudo de instalação e o registro de inspeções e manutenções. Também pesam a autorização formal para instalar na área comum e a comprovação de que a edificação mantinha a regularidade exigida pelo Corpo de Bombeiros.
A IT 41 paulista atribui a responsabilidade pela instalação integralmente ao responsável técnico ou à empresa instaladora, no item 5.2. Já a nota do CBMERJ exige documento de responsabilidade técnica e Certificado de Aprovação da edificação dentro da validade. Com isso, a escolha de quem instala fica entre as decisões de maior peso para o gestor. As consequências de deixar a documentação para depois aparecem em penalidades por falta de manutenção predial.
Seguro predial e conformidade documental
Cobertura de incêndio envolvendo veículo elétrico depende das condições gerais e particulares da apólice do condomínio ou do edifício. A leitura dessas cláusulas com o corretor deve acontecer antes da instalação. As exclusões ligadas a alteração de risco não comunicada ou a instalação fora de norma podem variar de uma seguradora para outra.
Comunicar à seguradora a instalação dos carregadores, com projeto e ART anexados, reduz o espaço para discussão sobre agravamento de risco numa eventual regulação de sinistro. O mesmo dossiê atende à assembleia, à fiscalização e à auditoria técnica, e evita que a administração tenha de reconstruir a história da instalação depois de um problema.
Inspeção e manutenção depois da entrega
Inspeção e manutenção de estações de recarga mantêm válido, ao longo dos anos, aquilo que o projeto e a ART atestaram no dia da entrega. Conector, cabo, dispositivo DR e aperto de bornes se degradam com uso diário, calor e manobra de veículos, e essa degradação fica invisível para o usuário até virar falha.
A termografia dos quadros e dos circuitos de recarga com os carregadores em operação identifica conexões aquecidas antes da falha. O teste periódico do DR confirma que a proteção contra choque continua atuando, e os dois procedimentos entram no plano de manutenção com periodicidade definida pelo fabricante e pelo responsável técnico.
Cabo com isolação danificada, conector com marca de aquecimento e defensa amassada são achados de inspeção visual que a ronda de manutenção registra com facilidade. Para isso, o checklist da ronda precisa incluir as vagas de recarga, e o registro vai para o sistema de gestão com foto, data e responsável pela correção.
Num condomínio do Rio de Janeiro com garagem em subsolo sem chuveiros automáticos, o pedido de um morador por carregador na própria vaga muda de natureza depois dessa análise. A nota do CBMERJ orienta a não instalar ali. A resposta técnica passa a ser uma vaga coletiva no térreo, com circuito exclusivo, chave de emergência sinalizada, ART, aprovação em assembleia e inspeção periódica registrada no plano de manutenção.
Perguntas frequentes
Carregador de veículo elétrico em garagem é seguro?
É seguro quando instalado com projeto conforme as normas ABNT, responsável técnico com ART, circuito exclusivo com proteção diferencial, desligamento de emergência e posição definida por análise de risco. Carregamento em tomada comum, com adaptador ou extensão, e vaga em subsolo sem chuveiros automáticos estão entre as condições que as orientações dos Corpos de Bombeiros tratam como inadequadas.
O que é thermal runaway em baterias de Lítio?
É a fuga térmica, reação em cadeia em que uma célula de Lítio aquece além do ponto de estabilidade, gera mais calor e gases inflamáveis e contamina as células vizinhas. Como o calor nasce dentro da bateria, o incêndio pode reacender depois de apagado e exige resfriamento prolongado com grande volume de água, feito pelo Corpo de Bombeiros.
Quem responde por um acidente com carregador em condomínio?
A responsabilidade é apurada caso a caso. O Código Civil atribui ao síndico o dever de diligenciar a conservação e a guarda das partes comuns, o responsável técnico responde pelo projeto e pela instalação que assinou com ART, e o usuário responde pelo uso. Projeto, ART, registros de inspeção e autorização formal comprovam a diligência da gestão.
Qual extintor usar em incêndio de bateria de Lítio?
Extintor portátil atua no princípio de incêndio do carregador, do cabo ou de material próximo, e bateria em fuga térmica exige resfriamento prolongado com grande volume de água, conduzido pelo Corpo de Bombeiros. Tipo, quantidade e posição dos extintores seguem o projeto de segurança contra incêndio aprovado no estado, e a brigada prioriza alarme, abandono e desligamento.
Onde posicionar o carregador no condomínio?
Preferencialmente no térreo, em área descoberta ou externa, afastado das rotas de saída e das tomadas de ar do sistema de climatização, conforme recomenda o CBMERJ no Rio de Janeiro. Subsolos e garagens fechadas sem chuveiros automáticos devem ser evitados. Em outros estados, vale a normativa do Corpo de Bombeiros local, que pode trazer distâncias próprias.
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Araujo Abreu: engenharia de segurança da avaliação à regularização
Avaliação de riscos em instalações de recarga, na Araujo Abreu, começa antes mesmo do projeto, com levantamento da curva de carga, das rotas de saída e das medidas de segurança contra incêndio existentes, e segue com a instalação acompanhada por responsável técnico e ART.
Depois da entrega, carregadores e quadros entram no plano de manutenção da edificação, com termografia, teste de proteção e registro das inspeções no sistema de gestão, o mesmo que a empresa aplica em ambientes corporativos, hospitalares, industriais, institucionais e em condomínios, em todos os estados do Brasil, desde 1922.
Entre as certificações ISO 9001, 14001, 41001 e 45001, a ISO 45001, de saúde e segurança ocupacional, é a que ancora o método de gestão de riscos aplicado às equipes de campo e às instalações atendidas.
Solicite uma avaliação de riscos da sua instalação de recarga e receba o diagnóstico com posição, proteção e documentação recomendadas para a sua edificação.